Comprimidos

Leia a bula.

Ao persistirem os sintomas, procure um médico que saiba responder algo além de "deve ser amor".
Que coisa doentia.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Não sei nadar.

Não adianta mais eu pedir pra você voltar, pra ficar, pra não ir, pra não ser, ou ser só pra mim. Você fez com que isso não dependesse nem de si próprio. E agora eu vejo a minha felicidade duplamente ramificada, e nenhuma das pontas sou eu quem segura. Eu queria ter a capacidade de controlar minhas sensações. De tirar, colocar e manipular o que precisar, só pra promulgar mais um pouco o prazer em ter meu diafragma funcionando normalmente. Mas esse prazer inexiste. Eu não faço mais tanta questão de respirar. Eu não faço mais tanta questão de porra nenhuma.
A única coisa que entra em mim agora é esse vazio, que se alarga, que preenche. Eu estou cheia dele. Desse oco. Dessa sua falta. Mas você não quer voltar. Você insiste em tomar aquele táxi de que falamos ontem. Você quer sair de mim. Eu não quero deixar. Mas os meus desejos não importam mais, porque tudo que cabe dentro de mim é essa puta chamada saudade, que dá e cobra mais do que merece.
Eu sei que você quer me deixar. E eu imagino que vá conseguir. Não que eu esteja permitindo ou pouco me importando. Você é o que mais me importa agora. Talvez mais do que eu mesma, que tenho essa mania fodida de ser mais para os outros do que para mim. E isso só não é mais complicado de admitir porque a verdade é fácil de desprender-se. Peço então que não incinere a felicidade que emoldurou e pregou na parede da minha carne com esse fogo ardido do "não". Que não faça com que tudo se transforme numa massa pálida e fétida chamada rancor.
Eu não quero te odiar, passar por você e virar a cara como se fosse um cão sarnento, desgostoso. E também não quero te perder, porque aí é menos um pedaço de mim e eu já sou pequena o bastante pra virar parcela. Só sei que quero deixar de sentir essa porra louca toda, essa dependência que me causa câncer de todos os órgãos.
Mas, enquanto isso não acontece, fico aqui brincando de vidinha, treinando pra sobrevida e reclamando da demora da morte. Me arrebentando internamente, tentando achar uma forma de desatar os nós de marinheiro das minhas víceras que te prendem em mim.
Náufrago.

4 comentários:

Beatriz disse...

"Eu não faço mais tanta questão de respirar. Eu não faço mais tanta questão de porra nenhuma."

Obrigada mesmo por tirar as palavras do meu pensamento. Um texto ótimo de se ler e que traduz bem o que tu sentes. Ou melhor, o que nós sentimos.
beijo ;*

Douglas Thaynã disse...

Incrível, excelente, foda! Teu jeito de escrever é excepcional, parabéns! E muito obrigado por seguir o Sangue e Solidão!

Fabiana Jordão disse...

e tu disse tudo o que eu ando sentindo por muito tempo.
obrigada!
maravilhoso seu texto.
beijos

Anônimo disse...

Impressionante... que força hein!!!

a farmácia das palavras: o veneno e o remédio...

Adorei. vou visitar sempre.

até me deu ânimo de voltar a escrever... ando numa abstinência poética...
bjs,

THiago

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