Comprimidos

Leia a bula.

Ao persistirem os sintomas, procure um médico que saiba responder algo além de "deve ser amor".
Que coisa doentia.

sábado, outubro 30, 2010

Aqui jaz meu eu lírico.

- O almoço está na mesa, querido.
Havia pouco tempo que estavam juntos. Pouco tempo até mesmo para saber quem eram; não existia a certeza nem do nome do outro. Mas a casa fedia a amor.
Uma pena que só ela se gabava do cheiro.

Enquanto a mulher, com uma expressão abobada, lhe entregava em uma bandeja de prata seu coração, ele ria-se por dentro sabendo que aquilo ia matá-la.
Ela estava esvaziando-se por ele, para ele. E isso não havia a menor importância, era um jogo, um passatempo que logo teria fim.
E teve mesmo.
Estavam dentro da casa com todas as janelas escancaradas, apesar da chuva. Tão arreganhadas quanto o sorriso que não evaporava do rosto dela.
A casa que ela sonhava ser só para eles dois.

Em poucas frases, cuspidas e mal formuladas, ele abriu a jaula de toda a agonia que residia nela mas que se escondia por detrás das ilusões que ele mesmo fomentou; palavras cortantes como um vento áspero e enregelante no meio da nevasca. Ela congelava. Estava frio ali dentro.
- Não é você, sou eu. Não fui feito para isso, gosto de ser livre.
Se ela estivesse em seu estado original, que nunca fora tão grogue de paixão, teria respondido imediatamente:
- Maldito filho-da-puta, porquê me trancafiou em você então?
Mas não. Emudeceu, como todo seu corpo fizera. Nada a obedecia. Perdera todo o respeito, o controle, o amor próprio.

Ele deu as costas e deixou a cena, restando apenas a moribunda. Uma caixa de ossos destrambelhada, desnorteada, desalmada. Nada.
Não restara absolutamente nada.
Sentou-se numa cadeira, tão oca quanto ela, e despejou os braços e a cabeça sobre o vidro.
Antes de se afogar em pesadelos de olhos abertos, pensou dramaticamente:
A morte está na mesa. É o que tem pra sempre.

Um comentário:

Guilherme Rodriguez disse...

Muito, mas muito bom. E servir-se da morte no almoço ou no jantar as vezes acaba sendo uma refeição díficil de engolir principalmente quando solidão é o acompanhamento...